terça-feira, 1 de outubro de 2013

Gente da Nossa Terra.


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O Blog Dourado Cidade Online tem a satisfação de descrever, através da narração do Sr. Rudynei Fattore, Jornal “O Dourado” de 26/10/2007, a história de mais um douradense que nos deixa saudosas lembranças de sua bondade e amizade. Uma história que remota o tempo do início do povoado de Dourado juntamente com as famílias pioneiras do Bairro do Bebedouro. Uma linda história.

Cada Banco Uma História.


A História de Manoel Cardoso se confunde com a dos pioneiros de nosso município de Dourado. Seus antepassados chegaram às terras de Bebedouro no início do século XIX. Toda história de ocupação das terras, formação dos primeiros núcleos de população, disputa pela imagem de São João Batista que os moradores foram buscar em carro de boi em Rio Claro, tudo se fez com a participação atuante da família Cardoso dos Santos, juntamente com todas as outras famílias tradicionais e pioneiras do Bairro do Bebedouro.

Foi aí nesse local que nasceu Manoel Cardoso dos Santos, filho de José Cardoso dos Santos e de Maria Francisca dos Santos no dia 26 de agosto de 1896.

Com apenas nove anos de idade ficou órfão de pai e quem assumiu o comando da casa, da fazenda, dos negócios e da família foi sua mãe, uma mulher de fibra.

Quando criança recebeu os ensinamentos de um professor particular vindo de Brotas.

No início da fase adulta casou-se com Maria Cervadoro, descendente de imigrantes italianos. Foi muito batalhadora, companheira prestimosa e que sabia encarar as dificuldades do trabalho e ser parceira do marido, até nos acampamentos das empreitadas de trabalho em outras terras.

Manoel era inteligente, sensível e aberto ao conhecimento e às novidades do seu tempo: características que foram marcantes e determinantes ao longo de sua vida.

Gostava muito de música. Fez parte da banda de música antigamente. Tocou violão por muito tempo e só parou quando se feriu na serraria e ficou com um dos dedos sem flexibilidade. Fazia parceria com sua esposa que tocava bandolim e ambos cantavam muito bem, alegrando os encontros e reuniões de família. As músicas preferidas: Saudades de Matão e Branca.

Gostava muito de ler jornais para ficar por dentro das noticias e adquirir mais conhecimentos. Ao surgir o Rádio, ouvia o Repórter Esso e a Hora do Brasil.

Em sua fazenda sempre houve muitas moradias e deu trabalho para muita gente que criou lá os seus filhos e que ainda hoje voltam com com netos e bisnetos procurando relembrar aqueles tempos bons.

Manoel Cardoso dos Santos tinha grande preocupação com o bem estar dos seus trabalhadores e um cuidado especial com a educação das crianças. Sempre valorizou muito a educação escolar e, por isso, mandou construir uma escola e a casa dos primeiros professores: o casal, Dona Nenê e Seu Augusto. Durante o dia ensinavam as crianças e à noite ensinavam os adultos.

A Escolinha do Bebedouro deixou saudades e boa lembrança para os que lá estudaram. E foram muitos porque ela atendia a todas as fazendas e sítios do Bairro do Bebedouro e os adultos à luz de lampião.

Os professores sempre receberam muita assistência por parte do Seu Manoel que cuidava também de transportar gratuitamente os professores que não perdiam aula nem em dia de chuva, pois pra enfrentar o barro da estrada e a serra escorregadia ele tinha o cuidado de acorrentar as rodas da condução.

Seu Manoel tinha paixão por carro de boi e fazia muito gosto de ele mesmo comandar e fazer cantar carregando oito metros de lenha ou qualquer outro produto da fazenda. Os últimos bois foram o Cruzeiro e o Canário: dois bois enormes, de grandes chifres retorcidos, que pesavam umas arrobas cada um. Não tinha coragem de vende-los para o matadouro movidos pela gratidão, pela convivência e pelos serviços prestados. Vendeu-os para um particular.


Em sua propriedade fez de tudo: tirou leite, plantou arroz, feijão, milho, amendoim, algodão e fez horta. Era um semeador nato: vivia com os bolsos cheios de sementes que ia espalhando onde passava ou beirando as cercas. Para o cultivo das lavouras usou de instrumentos agrícolas desde os mais simples e rudimentares como as plantadeiras pelo homem, como os pequenos aradas puxados por burros e nos últimos tempos por trator.

Teve a preocupação de formar um pomar que sempre foi visitado por muitos que usufruíram dos saborosos frutos. Era comum alguém lhe dizer: “- Mas o Senhor vai plantar essa árvore? Ela demora muito pra dar frutos! o Senhor nem vai comer delas!” E Ele respondia com sua voz mansa e educada: “- Pois se eu não comer, outro come!” E quantos comeram e ainda comem! E que pomar de jabuticaba lindo e saboroso ele fez!

Em sua fazenda os grãos que produzia eram beneficiados e triturados e transformados em farinha ali mesmo através do monjolo. Com o passar do tempo teve até máquina de arroz na cidade e também uma serraria.

Seu espírito empreendedor fez com que ele construísse um engenho para a transformação da cana em melado, açúcar redondo, açúcar mascavo e rapadura com batata-doce, abóbora, amendoim e gergelim. Tudo que produziu era de boa qualidade, a maior parte não era para vender e sim para presentear as pessoas. Fez até um engenho de pinga, com autorização fiscal e tudo. No rótulo das garrafas estava em destaque “Caninha Cardoso”. Não bebia mas presenteava os amigos.

Por falar em vícios, também não fumava e não gostava do cheiro do cigarro. Quem fosse fumar perto dele era impedido delicadamente, pois ele oferecia uma bala que sempre trazia no bolso, dizendo:
- Fuma este aqui ó”!

Manoel foi inovador nos meios de transportes aqui em Dourado. O seu caminhão era tão pioneiro que possuía até roda de pau.

Alguns anos depois comprou um caminhão Ford 34, zero Km. na agência Carron em Ribeirão Bonito. Isto foi a glória mas outros caminhões e caminhonetes se sucederam.

Nessas condições transportava de tudo e até gente. Serviu muito aos moradores do Bebedouro, pois sempre cabia mais um.

Depois de um dia de lida dura na terra, voltava para a cidade com o caminhão carregado de lenha a ser entregue nas casas dos fregueses para alimentar os fogões que ainda não usavam gás. Transportou lenha para a douradense movimentar os trens.

Transportou toda a madeira para a construção do antigo Salmer. Com seus caminhões ensinou muita gente a dirigir e deram bons motoristas. Muitos deles trabalham até hoje e lembram disso com saudades e gratidão.

Logo que chegou o telefone aqui em Dourado, ele instalou um aparelho em sua fazenda que era o único do Bebedouro e servia a todos os moradores.

Uma curiosidade de sua vida: nunca comeu carne de vaca. Só comia carne de frango e de porco. Sua comida era feita em banha de porco e até a salada era temperada com a gordura do porco. Nunca teve colesterol nem triglicérides. Sempre teve muita atividade física: dirigiu até os 88 anos de idade e aos 86 ainda subia em árvores altíssimas!

Era um homem de muita fé religiosa e sempre alimentou uma grande devoção à Nossa Senhora Aparecida a quem dizia nos últimos tempos: “Venha me buscar minha madrinha.”

Ficaram as boas lembranças os bons exemplos, as saudades e os seus descendentes que continuam a construir histórias.
Seus filhos: Mariza casada com o Caldas e Manoel, o Manoelito, casado com a Eli.

Seus netos: Carlos Alberto casado com a Sílvia; a Renata, o André e o Fábio.
Suas bisnetas: Bruna, Bianca e Letícia.

Manoel Cardoso dos Santos deixou muitas histórias para contar, além dos “causos” com que entretia os amigos.

Conhecendo a história de Manoel Cardoso dos Santos, que viveu 90 anos incompletos, conhecemos um pouco da história de evolução e transformação do mundo durante o século XX.


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Cada Banco, Uma História. (Bazar Americano)