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quinta-feira, 21 de julho de 2011

A formação de Dourado.




O surgimento de Dourado e de outros municípios do interior paulista foi conseqüência de um movimento migratório surgido no início do século 19. À época, o estado de Minas Gerais passava por uma forte crise econômica em decorrência do declínio das minas de ouro. Paralelamente, muitas regiões do estado mineiro também passavam por transformações econômicas marcantes, como a que deu início à atividade pastoril. Esta, porém, exigia altos investimentos na aquisição de terras para a criação do gado e do burro e o cenário contribuía para o início da imigração: a imensa quantidade de famílias numerosas aliado ao inviável valor cobrado pelas terras forçaram os povoados a buscar alternativas de trabalho e renda para dar prosseguimento às suas famílias.

Muitas famílias mineiras das regiões Sul (Alfenas, Caldas, Campanha, Ouro Fino e Pouso Alegre) e Central (Campo Belo, Formiga, Piuím e São Bento do Tamanduá) decidiram partir para “Boca do Sertão”, como era conhecida na época a região de Araraquara, em busca de boas terras para criar e plantar. Antes de chegarem ao destino, os migrantes passaram por grandes dificuldades durante o percurso. Eles viajaram em carros de bois e em lombos de burros levando uma bagagem extensa: familiares, criações e, em alguns casos, seus escravos. Como o percurso era longo, a mudança era feita sempre em caravanas. Quem precisava de mais cuidado, como os velhos e as crianças pequenas, por exemplo, gozavam o privilégio de viajarem em jacás, colocados em cima dos burros. Em 1820, haviam dois trajetos mais conhecidos pelos migrantes. Um passava por Casa Branca, Franca e Batatais, antes de chegar à vila de Araraquara. No outro percurso, as famílias passavam por Mogi-Mirim em direção a Itaqueri da Serra.





Basicamente, esse foi um dos movimentos que deram origem aos municípios do interior paulista – em especial das regiões Norte e Central. Araraquara, Itirapina (antiga Itaqueri da Serra), Brotas, Jaú e Dois Córregos são alguns exemplos. De acordo com relatos e registros históricos, o município de Brotas chamava mais a atenção dos migrantes mineiros. Foi nesse período que surgiu uma capela na Serra de Itaqueri, na região que pertencia Araraquara, conhecida como Fazenda Velha”. Foi nessa localidade que começaram a se estabelecer as primeiras famílias mineiras.

Mais adiante em outro local, conhecido como “Serra do Dourado”, foram chegando migrantes que utilizaram uma estrada aberta pelos bandeirantes. Eles construíram algumas choupanas, que deu origem a um pequeno burgo chamado Bebedouro.

As transações comerciais de terras eram feitas, até meados do século 19, praticamente sem formalidades. O máximo que existia, nesses casos, era a assinatura de uma Escritura particular. Foi então que em 1850, o governo estadual criou uma lei que passou a obrigar os fazendeiros a regularizar suas propriedades rurais. Todos os registros passaram a ser feitos pelos padres, em livros que ficavam nas igrejas. O documento era nomeado de “Registro Paroquial de Terras”, um importante material que passou a esclarecer a origem das propriedades particulares das terras brasileiras.






É justamente no livro de número vinte, da Freguesia de Brotas, que está uma das primeiras referências históricas feitas a Dourado. Lá, no registro número sessenta do ano de 1856, feito em 5 de maio, há o registro de José Alves de Lima, natural de São José das Formigas, hoje conhecida como Paraisópolis, Minas Gerais. Está escrito no documento a seguinte referência “...no lugar denominado Dourado, que havia por posse feita há 26 anos mais ou menos”, por volta de 1830. Mais adiante, no dia 27 de maio do mesmo ano, Antonio José Vieira registrava uma parte de terras no valor de 285 mil réis e mais de oito alqueires de terras lavradas no local denominado Sítio das Contendas, situadas no “Bairro do Dourado” (folha cento e doze, registro número duzentos e quinze). Ainda em maio de 1856, Maria Francisca de Jesus, viúva de Joaquim Pereira de Araújo, também mineiro, registrava suas terras no “Sítio do Dourado”, situado às margens do Rio Jacaré-Pepira (folha cento e um verso, registro número cento e noventa).

 
Com o passar do tempo, o povoado foi aumentando. Por volta de 1880, o capitão José Modesto de Abreu, um dos mais antigos moradores do local, doou uma gleba de terras incultas, situadas na “Serra do Dourado”, dando início à formação do povoado local, que recebeu o nome de São João Batista de Dourados. À José Modesto de Abreu, aliás, é creditada a fundação do que mais tarde seria o município de Dourado, por ter construído um rancho em suas terras situadas justamente na “Serra do Dourado”, em torno do qual deu-se início ao povoado.

São João Batista de Dourados crescia e, naturalmente, com o passar do tempo adquiriu supremacia em relação a Bebedouro, que se transformou, por sua vez, num bairro da localidade principal.

Em 1876, por meio de uma lei provincial, o bairro ganhou uma cadeira de primeiras letras. O que era uma pequena capela já se tornara em um capelão curado, onde eram oficializados casamentos, batizados e até o sacramento dos moribundos.

Francisco Eleodoro dos Santos, Bento Luis de Souza, Francisco Antonio Simões, José Alves de Lima, os irmãos Gomes de Freitas, e a família Correa dos Reis ou Correa de Toledo foram considerados os primeiros povoadores.

As primeiras famílias que ali chegaram tinham plantação e criação modestas, unicamente para o consumo. Criavam gado e porco e plantavam basicamente milho, feijão, algodão e cana-de-açúcar. As transformações da região foram impulsionadas pela introdução do café e também pela abolição da escravatura. Várias fazendas surgiram no local e muitos imigrantes italianos e espanhóis chegaram para substituir o trabalho escravo nas plantações.

Em 1876 o povoado tornou Curato e depois, em 1891, foi elevado à condição de Distrito de Paz, quando passou a ser denominado de Dourado. Apenas seis anos depois, em 1897, em 19 de maio, o então distrito de Brotas recebeu o título de município de Dourado.

Nessa época (de 1891 a 1897) a agricultura já exercia papel determinante na vida econômica do recém-criado município. Entretanto, em 1900 era inaugurada a Companhia de Estrada de Ferro do Dourado (Douradense), com sede na cidade de Dourado. A ferrovia teve seu apogeu concomitantemente à cultura de café, que ocupava em 1920 uma área de 5.902 hectares, o equivalente a 27,7% do território total, cujo cultivo era feito por 60% das propriedades de Dourado.

Atrelado ao sucesso do café, a Ferrovia Douradense integrava diversos municípios aos grandes centros, como Santos e São Paulo, de forma a viabilizar as exportações do café da região. A Companhia de Estrada de Ferro do Dourado atendia às cidades de Ribeirão Bonito, Boa Esperança do Sul, Bocaina, Bariri, Jaú, Borborema, Tabatinga, Gavião Peixoto, Nova Europa, Ibitinga, Itápolis e Trabijú, dentre outras localidades, ultrapassando a extensão de 300 quilômetros de trilhos.

De 1900 até 1930 Dourado viveu seu apogeu, chegando a possuir aproximadamente 18.000 habitantes, e exercia relativa influência nas cidades que integravam a sua microrregião.

Com a crise de 1929, começou a redução das áreas de café do município, que à época chegou a incrível marca de 60,3% do território de Dourado. As áreas foram aos poucos substituídas pela cultura do algodão e milho. Na década de 60 a estrada de ferro, já encampada pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro, deixou de operar, transferindo de Dourado para outras cidades enorme contingente de ferroviários, estimado em cerca de trezentos. Com esse fato, aliado à queda da cultura do café, Dourado, que já apresentava dificuldades para se manter no mesmo nível de desenvolvimento dos anos anteriores, sofre enorme impacto, que refletiu intensamente na sua situação sócio-econômica.

Mesmo com essas fortes transformações, Dourado nunca chegou a exercer um papel de grande centro econômico regional, sempre conservou suas características de pequena cidade do interior. A mistura de povos, mineiros e europeus, criou um ambiente caseiro que rapidamente se adaptou ao fato de o município ter diminuído seu número de habitantes praticamente pela metade. Hoje vivem em Dourado aproximadamente nove mil pessoas.




Dados e fotos da Pesquisa:
Site - Prefeitura Municipal de Dourado.



Veja também neste Blog:











quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Isaura


Os Carneiros e a Estrela (Parte V) por Kate Agnelli.



Isaura


A vizinhança dos Agnelli com os Pereiras fez com que Violindo, que como o próprio nome denunciava, era bonito, forte, ruivo acabasse conhecendo Isaura. Os grandes amores são os mais difíceis, os mais contraditórios para aqueles que estão fora do círculo no qual eles se fecham...Isaura era delicada, pequena com olhos amendoados, cabelos castanhos claros, finos e teimosa como a maioria da família. Sua paixão não teve a aprovação dos pais, que viam os Italianos como bárbaros invasores, de costumes tão diferentes dos seus, que há muitas gerações só se casavam entre os parentes. Ou seria uma desconfiança subconsciente, milenar, resquícios do antigo Império Romano, que teria gravado profundamente suas marcas no povo do deserto...Contam que os primeiros "Abendanas" (Pereira), eram guerreiros de Israel, capturados e trazidos cativos pelo romano Flavius Josephus, até a Península Ibérica. Na mesma época outros Israelitas, por volta de mil deles, resistiram bravamente na fortaleza montanhosa de Massada, vendo eles que não iriam agüentar o poderoso contingente do exército Romano, suicidaram-se, para não cair na mão do inimigo.

Mas o amor desconhece a história humana e as fronteiras físicas, acontece...

Por outro lado os italianos não viam com bons olhos o casamento com uma "brasiliana". Estava novamente declarada a guerra. Casaram-se assim mesmo. Foram morar no que restou da fazenda Pedra Branca, reconquistada, fantasmagórica, com todo aquele maquinário de beneficiar café parado. Violindo acreditava na força de sua juventude e no amor. Mantinha as máquinas, para não estragarem, ia plantando outras culturas. O casal era feliz ao seu modo. Cada um ensinava ao outro um pouco de sua cultura, seus costumes. E veio a primeira filha. Uma linda menina forte e saudável de nome Sílvia. Depois de três meses, estavam esperando o segundo filho, sentiam-se abençoados, antigamente ter filhos logo no começo do casamento era sinal da aprovação de D'us. Estavam no meio da Revolução que pipocava pelo Estado de São Paulo. O presidente Washington Luiz havia sido deposto os estados mais fortes eram São Paulo e Minas Gerais, a popular República café com leite. Em São Paulo o partido mais importante era o P.R.P., que apoiava o governo, no entanto muitos cafeicultores estavam descontentes com o governo e não se opuseram a Revolução, que pôs na sede do governo federal o gaúcho Getúlio Vargas.. Ele deveria governar provisoriamente até que fossem realizadas novas eleições. Os estados eram governados por interventores impostos pelo governo, mas as forças que se uniram para a Revolução logo começaram a se desentender. Tudo foi ficando confuso, não só para o Brasil. A insatisfação humana existe por toda parte. A Europa não guerreava, mas não tinha paz. Os mexericos corriam nas bocas das pessoas era como se todo mundo estivesse à beira de um ataque de nervos. Como diz o ditado Ladino "a língua não tem osso, mas quebra ossos". O fato de Isaura ser brasileira já era um bom motivo para arrumar encrenca no meio da colônia Italiana.

Certo dia Violindo estava limpando as máquinas, quando viu as mulheres da família Agnelli surgirem na entrada da fazenda, logo imaginou, querem encrenca! Correu até a frente delas e foi dizendo se alguma delas falasse ou encostasse a mão em Isaura , iria apanhar tanto dele, que nunca mais esqueceria...Ele amava aquela "brasiliana" verdadeiramente. Ninguém nunca soube o que realmente tinha acontecido, porque as mulheres estavam com jeito de briga naquele dia. Violindo como a maioria dos Italianos da época era torcedor fanático do Palmeiras. Num Domingo ouvindo pelo rádio que seu time ganhara, não podia se conter de tanta alegria. Pegou o "fordinho", rumou para Dourado para comemorar com os amigos. A asa negra da infelicidade começou a encobrir sua vida naquele dia. Um trabalhador rural bêbado, saiu de trás de uns arbustos com um garrafão de pinga na mão atirou-se em frente ao seu carro, morreu na hora. Aterrorizado Violindo desceu do carro, colocou-o no banco de trás e correu o mais rápido possível para Dourado, levando ao Dr. Almeida, mas o infeliz já estava morto. A mente de Violindo parecia uma montanha russa, primeiro a alegria por causa do futebol, depois a desgraça, uma profunda tristeza entrou no seu bom coração...Tinha trinta anos.

Alguns meses após o infeliz acontecimento e depois de absolvido pelas leis, Violindo começou a sentir fortes dores abdominais. Os médicos da cidade Dr. Borja Cardoso e Dr. Almeida tentaram tudo que podiam para ajudá-lo, mas em vão. Deram seu parecer, era apendicite. Dourado não possuía hospital. Era o mês de junho, o vento frio cortava a cidade e a pele fina das pessoas. Os Agnelli, pegaram o fordinho e levaram Violindo para a cidade de Jau. Os solavancos da estrada de terra pareciam intermináveis. Violindo não suportou. Morreu na entrada da cidade, antes de chegar ao hospital.

Dizem que nos seus delírios febris ele dizia que viria buscar a filha, não a deixaria no mundo para sofrer. Dito e feito. Após morte a menina adoeceu de gastroenterite, morrendo em setembro, passados exatos três meses. Isaura pensou que D'us devia estar certo porque sua sogra dizia que queria a menina.

De fato tiraram-lhe todos os bens materiais. Isaura diante de tanta dor, perdeu o filho que esperava. Não suportou enlouqueceu. Não comia. Não bebia. Ficava parada, ausente com o cachorrinho lulu nos braços. Último presente de Violindo. Seus irmãos levaram-na para a fazenda Boa Vista. Ensandecida pela dor, tinha medo de tudo, até de uma simples galinha.

Às vezes vagava pelos pastos por horas, sem destino, falando línguas que ninguém compreendia. Foi ficando por ali rodeada de amor e compreensão dos pais e irmãos. Nada restara de seu. Até o luluzinho a sogra mandou buscar. O sofrimento age de diferentes formas em diferentes pessoas.

O tempo vai assentando as águas revoltas das emoções. Isaura desenvolveu uma rara paranormalidade, previa o futuro com precisão assustadora. Também via o passado das pessoas, somente olhando para elas. Falava com os mortos como falamos com nossos familiares. Quanto seus irmãos queriam saber o resultado do turfe do Rio de Janeiro, perguntavam a ela. Espantosamente ela dava todos os resultados. Tudo era confirmado no dia seguinte pelos jornais que chegavam à fazenda. Era de espantar até o mais incrédulo. E assim Isaura foi vivendo num corpo vazio de desejos, enquanto sua alma vagava pelos espaços infinitos, que ainda não nos é permitido conhecer... O sofrimento tirou de sua mente o fino véu que separa o mundo material do espiritual. Uma família amiga de Jau ofereceu hospedagem para ela, para quem sabe mudando de ambiente pudesse melhorar. Todos achavam que jamais recobraria a razão. Depois de muitas idas e vindas tratamentos espirituais, ela foi se equilibrando.

Acabou arrumando um trabalho em Campinas. Mas continuava sem sentir, dizia que estava de passagem por este mundo. Às vezes desligava-se do presente, deixando a pessoa com quem estava conversando falando sozinha. Refugiou-se no espiritismo. Fundou o centro espírita de Dourado "Em Torno do Mestre". Deu parte de sua herança para uma creche de crianças excepcionais de Rio Claro, que atualmente recebe ajuda da rainha Silvia da Suécia, possuidora de raízes brasileiras. Isaura não tinha âncora no mundo. Ajudava aos pobres e necessitados que encontrou pela vida. Fez muita caridade tanto material como espiritual.

Seus ideais não foram compreendidos por grande parte da sua família. Aqueles que a condenavam, muitas vezes precisaram de sua ajuda, mesmo que continuassem indo todos os domingos na missa. "Façam que eu digo, mas não que faço", a hipocrisia humana de sempre, que de tanto ser praticada acaba parecendo normal...

Assim Isaura era amada e odiada como a maioria de nós seres humanos. O mais interessante foi que ela previu a própria morte. Exigiu que a banda da escola na qual trabalhava tocasse no seu funeral. Foi inclusive na fábrica de moveis de um parente tirar as medidas do próprio caixão, enquanto todos ficavam estarrecidos, ela parecia finalmente ter encontrado a paz

Morreu no dia previsto, sentada na sua cama, seria o dia do aniversário da sua filha...Enquanto seu cortejo fúnebre passava, o comércio da cidade baixava as portas...



No período que Isaura esteve atormentada, apareceu na Boa Vista um negro africano, segundo diziam, feiticeiro. O velho Firmino ( pai de Isaura), com pena deixou-o morar nas suas terras. O negro fez um rancho bem longe da casa sede e por ali ficou. Curava pessoas com ervas nativas, que conhecia muito bem. Sua fama aumentou muito. Apareciam doentes de toda parte. Até que a ganância e a vaidade tomaram conta de seu coração. Passou a cobrar por seus chás e benzimentos. Nessa época a lepra era uma doença incurável. Certo homem muito rico viu-se acometido pelo terrível mal. Procurou o tal curandeiro. Cada vez que fazia seus benzimentos no tal homem, mais dinheiro ele pegava. Até que o homem rico resolveu ficar por ali na cabana com o negro para curar-se mais rápido. Acabou morrendo.

Sem saber o que fazer com o cadáver, enterrou-o ali perto do casebre, mas nas terras que pertenciam a Antonio Agnelli. É claro que uma assim jamais fica escondida. As pessoas falavam...

Antonio Agnelli ao saber do fato foi direto na delegacia e denunciou o negro. A polícia foi até o local descobriu o feito. Desenterraram o cadáver. Prenderam o negro e deram-lhe uma surra.

O feiticeiro nunca perdoou o acontecido e amaldiçoava os Agnelli de todas as formas. A filha mais velha de Antonio Agnelli estava noiva de um rapaz , filho de Italianos da cidade de Ribeirão Bonito, quando conheceu Osório Pereira, que por sua vez iria casar-se, como de costume da família com uma prima. De repente Osório começou a se interessar por Júlia e vice-versa. Ela desmanchou o noivado e encontrava-se às escondidas com ele. Antonio Agnelli ao saber do fato disse que mataria Osório, que passou a andar armado constantemente. Isaura como sempre tinha suas visões e pressentimentos. Logo desconfiou que algo estava errado.

Em suas visões aparecia o feiticeiro preso. Ela não teve dúvidas, foi visitá-lo na cadeia e perguntou se ele sabia de alguma coisa envolvendo seu irmão Osório. O negro disse que se os Agnelli não gostavam dos Pereiras, dali pra frente iriam ter que aturá-los pelo resto da vida. Disse ter feito um encantamento que ninguém jamais poderia quebrar. Na verdade as coisas começaram realmente a piorar, tanto no namoro como nas famílias. O pai de Osório ficou doente com câncer na garganta, mas para espanto dos médicos não sentia dor alguma. Só foi enfraquecendo. Todos diziam que ele não sentia dor devido `a bondade de seu coração.

Certo dia enquanto ainda podia andar, estava ele carregando um jacá de milho para colocar no moinho, quando apareceu um moço muito bem vestido, dizendo-se curador. Disse para Firmino Pereira que ele estava doente porque haviam enterrado um Santo Antonio de ponta cabeça no mourão de sua porteira. Firmino abaixou o jacá. Colocou-o no chão, olhou firme par o rapaz e foi dizendo. "Olha moço se o santo é santo mesmo, tanto faz ele estar de pé ou de ponta cabeça, deitado, a bondade não muda". Dizendo isso levantou o jacá do chão colocou-o no ombro e foi embora em direção ao moinho da fazenda. O tal curador desiludido, não teve outra saída, puxou a rédea do cavalo e se foi... No dia da grande viagem, Firmino disse para sua filha mais velha Maria "hoje quando o relógio bater dez horas estou seguindo viagem". Sem entender, Maria achou que o pai estava caducando. Só percebeu a mensagem no dia seguinte, quando estavam velando o corpo. Ela lembrou-se que quando o relógio estava realmente batendo dez horas da noite, sua mãe aflita chamou os filhos para informar que o pai deles acabara de falecer. Maria nunca mais pode ouvir o som do carrilhão...

Alguns dias antes de sua morte Firmino chamou Osorio e Júlia e pediu que eles se casassem. Firmino Pereira foi realmente bom. Certa vez vendeu duzentos e cinqüenta alqueires de terras para ajudar seu irmão Juca que estava em apuros. Depois disso Juca, mudou-se com a família para Andradina. Era o ano de 1938.Ninguém soube dizer se foi praga do negro ou se o amor proibido é melhor, o fato é que os dois se casaram em 1939. Estourava a guerra na Europa e entre famílias... No dia que Júlia enfim foi convidada para conhecer a família toda de Osório, estranhou um pouco a austeridade que encontrou. As mulheres na sua maioria vestiam-se de roupas escuras, ou com estampas miúdas. Usavam cabelos presos por tranças ou em severos coques, numa época que a moda era de cabelos curtos com permanentes. Achou estranho também o modo de comunicação, quase não se falavam. Trocavam estranhos olhares.

Os Pereiras pareciam ter um código especial de comunicação entre eles. Numa família de poucas misturas étnicas a palavra acaba tornando-se inútil. Júlia estava acostumada com pessoas que demostravam de modo os seus sentimentos. Vestiam com cores alegres, tecidos finos e falavam muito.

Quando retornou da visita à futura família, suas amigas da cidade lhe perguntaram se os Pereiras não pediram para ela "mostrar os dentes"...Todos conheciam as desavenças. Os preconceitos e desencontros. Eram duas raças diferentes, mas igualmente arrogantes, cada uma a seu modo. Para algumas pessoas é muito difícil aceitar aquilo que não espelha elas próprias... Voltando ao tricô que tece a malha do destino Osório e Júlia estavam casados e já com dois filhos pequenos quando resolveram mudar-se para Andradina à convite do "tio Juca". Mesmo porque Osório havia sido convocado para a guerra.

Dizem que ele se apresentou e sem descer do cavalo perguntou porque o tinham chamado. Quando revelaram a causa, ele ainda sem descer do cavalo disse para o funcionário "Eles arrumaram a briga, que apartem! Por que temos nós que ir até lá?! "Dizendo isso virou as rédeas do cavalo e foi embora, deixando o pobre homem ciente que estava cumprindo um dever patriótico, sem palavras...

E assim o jovem casal tomou o trem da Noroeste de Bauru e rumou para os confins do mundo, como diziam. Quase na divisa com Mato Grosso a natureza ainda estava para ser domada. O mato era grosso mesmo. Não havia estradas, só picadas. Ao se descer do trem e andar alguns metros já se deparava com a floresta desafiadora. Bandos de araras vermelhas sobrevoavam os ranchos. O calor era insuportável, abafava até as idéias. Água perto de casa só de poço. Pernilongos de todo tipo, chuvas torrenciais. Malária todos tiveram, até as crianças. Muita lama, sol abrasador. Medo dos Índios. Afinal estavam invadindo a terra que era deles por séculos. A criação de gado e porcos era abundante. Vermelhidão no solo, na pele, no céu e nas mentes das pessoas enraivecidas pela pequenez do ser humano perante a força da natureza...

A terra sempre foi muito mais forte do que todos nós...Não se sabe se o calor insuportável, a falta de conforto e de cuidados médicos fizeram com que Júlia perdesse o terceiro filho, uma robusta menina. Derem-lhe o nome de Vilma. Ficou lá em Andradina. Não suportando mais os sofrimentos que vinha passando Júlia escreveu para sua mãe. Tereza, mulher decidida e forte, tomou o trem da Noroeste em Bauru e foi buscar a filha. Quando chegou lá viu que a situação deles era pior do que imaginava.

Para enfrentar a vida naquele lugar, era necessário muito mais do que a vontade. Precisava ser do tipo físico apropriado. Mulheres delicadas, jamais suportariam. Voltaram para a Boa Vista.



Família.






Ver também:

Os Carneiros e a Estrela (Parte I).

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/08/num-passado-distante-em-dourado.html


Os Carneiros e a Estrela (Parte II).

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/08/dourado-e-imigracao-italiana.html


Os Carneiros e a Estrela (Parte III).

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/08/ascendencia-espanhola.html


Os Carneiros e a Estrela (Parte IV).

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/09/dourado.html



Cartas de Germano Agnelli (2ª Guerra Mundial).

http://douradocidadeonline.blogspot.com/search/label/Germano


Igreja Matriz de Dourado (Início do Século XX).

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/06/igreja-matriz-de-sao-joao-batista.html



História do Trevo de Dourado.

http://douradocidadeonline.blogspot.com/search?updated-max=2010-04-26T15%3A34%3A00-03%3A00&max-results=1




quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Dourado


Os Carneiros e a Estrela (Parte IV) por Kate Agnelli.

Dourado


Era uma grande família a dos Agnelli, como a videira vai enroscando seus ganchos atrás da luz do sol para dar novos frutos, seus descendentes iam espalhando-se pelo Brasil formando novos núcleos. Natale e Giustina escolheram Dourado para morar, viviam numa chácara chamada "Jardim Novo", onde plantavam legumes, verduras, frutas, até mesmo pêras e maçãs, tão difíceis de encontrar na época. Contam que ao lado da chácara havia um campinho de futebol, bem ao lado do muro, onde os meninos iam fazer suas "peladas" O velho Natale, de gênio brincalhão, chamava a garotada por cima do muro e joga-lhes frutas, enquanto os meninos ávidos catavam as delícias, lá vinha uma bacia de água por cima de suas cabeças. Era um divertimento para Natale e para a molecada também, pois com o calor, aquilo era um refresco e tanto.
Os anos já pesavam para os dois velhinhos italianos, queriam viver sossegadamente longe de tantas lutas e lutos...Por esta época Dourado já possuía casas comerciais como os Colagrossi que dominavam o setor de secos e molhados, sendo um deles agente Consular italiano. Os Tavano vendiam e fabricavam calçados, chapéus,etc. As famílias Jacobucci e Freitas começavam a fabricar guaraná e cerveja. Sendo o guaraná Tupy e cerveja Guarany, dos Jacobucci.
Normalmente aqueles que vinham do sul Italiano como a Calábria, Sicilia, Puglia, Bari, acabavam se dedicando ao comércio, enquanto que aqueles que vinham do norte Italiano iam para a agricultura. A grande maioria da população douradense era italiana; Agnelli, Ambrozio Baldin, Battisacco, Bergamasco, Bonassi, Borragini, Boschi, Brunelli, Buzutti, Buzza, Canela, Crotti, Carli, Castelucci, Cervadoro, Colagrossi, Colombo, Crotti, D'Abruzzo, D'Avoglio, Decicine, Demetti, Desajacomo, Devita, Dictoro, Domeniconi, Donato, Ellio, Fabrega, Facco, Failla, Fantini, Fattori (e), Favoni, Fazan, Fiamoncine, Finhana, Flocco, Foschini, Fragalli, Fragnan, Furlan, Galantini, Galassi, Genardi, Genghi, Gennari, Gramignolli, Gregorio, Laurenti, Lolis, Macari, Magri, Mania, Mangini, Marchi, Marrega, Mascaro, Matttei, Maturano, Melle, Miasi, Migliorelli, Mirandola, Miranda, Nardi, Nardini, Panza, Pedreschi, Pessan, Pieri, Pierini, Pietro, Poli, Roganti, Rosa, Rosalin, Rosato, Rossi, Sciaretta, Scocca, Speranza, Stella, Taconelli, Thomazin, Vanucchi, Vanzelli, Zanon. E muitos outros vindos depois, como os espanhóis; Alvarez, Aguillar, Ballestero, Bueno, Justi (o), Garcia, Gimenez, Gutierrez, Leal, Lopez, Lozano, Munhoz, Penha, Perez, Puerta, Marin, Morales, Rodrigues, Sanchez, Ribas, Rubio. Alguns Poloneses como os Thomasaukas; Austríacos como os Milharcix, Sírios e Libaneses; Assuad, Chaibubi, Chueri, Maluf, etc. Me perdoem aqueles que não consegui encontrar os nomes.
A maioria dos imigrantes tinha tristes histórias para contar sobre a longa travessia do Oceano Atlântico. Durante a viagem, as primeiras vítimas eram as crianças e os velhos, que ao morrerem eram atirados ao mar. Quase todo dia havia alguém chorando no convés do navio. A ração da viagem muitas vezes era fraca, para famílias enormes. Muitas mães acabavam deixando de comer seu pedaço de pão para dá-los aos filhos pequenos. Chegavam magros, ansiosos. Muitos eram separados na hora da triagem da imigração, já no porto de Santos. Algumas famílias que passaram gerações juntas numa mesma região italiana, nunca mais se viram a partir dali...
O destino certo era a capital de São Paulo, de onde eram mandados para as fazendas de café nas várias cidades paulistas. Na ingenuidade deles iriam fazer dinheiro a rodo, mas o rodo que encontravam era o de puxar o café para secar, debaixo de um sol abrasador. Precisavam resistir às diarréias e insolação. A comida, na maior parte do tempo, era polenta com rúcula, plantada e colhida entre os pés de café. Havia pouca carne, somente a dos patos e galinhas criadas nos fundos das casas das colônias, mas sobrava dignidade...


Nunca se viu um imigrante mendigando pelas ruas, a não ser aqueles que perdiam a razão. Se a vida era dura, trabalhavam dobrado. As mulheres, verdadeiras rochas, além de ajudarem no cafezal, pariam filhos, cozinhavam, plantavam hortas e cuidavam dos animais domésticos. Foi quando a economia do país estava começando a mudar e iniciou a nova. A do empregado assalariado. Alguns fazendeiros começaram a achar que aquela gente clara não era tão interessante para eles como os escravos e o nome da princesa Isabel não foi muito bem falado por alguns fazendeiros... Começavam também as primeiras manifestações sindicais. Na época um crime. Aqueles que queriam levantar a cabeça contra as injustiças apareciam pendurados em árvores no meio da mata e tratados como suicidas.. Segundo relato de Zuleika Alvim, historiadora da USP, no seu livro "Brava Gente" há o seguinte relato; "em 1905, Carlos Botelho, secretário da Agricultura na época, retomou a política de núcleos coloniais, criando a Agência de Colonização e Trabalho em 1906, cujo objetivo era favorecer a colonização (...) proteger o trabalho e impedir que o colono fosse objeto de engano por parte de agentes especuladores e fazendeiros pouco honestos. Estranha preocupação para um homem que dez anos antes, em 1896, teve seu nome envolvido na morte de um colono, que ficou impune como tantas outras, conforme relato feito na época junto ao agente consular em Dourado ( Há três dias desapareceu da fazenda do Sr. Carlos Botelho (...) um colono italiano, sem deixar nenhum traço, sua família numerosa, estava desoladíssima e todos na fazenda preocupados com o estranho desaparecimento. Qual, porém não foi a surpresa, ou melhor, o espanto de alguns cidadãos ao encontrarem, na manhã do dia 20 de abril de 1896, num bosque da fazenda, pendurado numa árvore, o cadáver do fugitivo(...), tratava-se de um suicídio ou de um caso de enforcamento? Mistério...O delegado Luiz da Vinha, avisado do fato e solicitado a dirigir-se ao local(...), recusou-se perempetoriamente. Assim o morto foi retirado da árvore e sepultado sem a menor intervenção de nenhuma autoridade".
Esse documento existe na Itália, pois foi enviado pelo agente Consular Italiano para lá. Mas Carlos Botelho foi também um grande benfeitor para Dourado. Possuía fazendas de café por lá. Trouxe a luz elétrica, a Cadeia Pública, o Matadouro e o Grupo Escolar que leva seu nome. Enfim interesses casados sempre trazem "progressos" para ambas as partes. O café foi chamado inclusive de "ouro brasileiro". Segundo dizem as terras Douradenses e Saõcarlenses produziam o melhor café para exportação. E o mundo não imaginava o longo caminho percorrido, até que o aroma reconfortante chegasse à Europa e Estados Unidos. Todos queriam a terra, sempre a terra para mais café ... Terra adorada, desejada , explorada e machucada... Porque os verdadeiros protetores dela, de suas matas e riachos, os coitados dos Índios, primeiros habitantes, vencidos foram acabar numa pequena reserva perto de Bauru, tão perto e tão longe de suas antigas ocas...
Onde ainda continuam invadidos, agora por outro tipo de brancos os das ideologias religiosas. Quase extintos pela barbárie branca, estão embebedando e suicidando-se... Deixaram os nomes como prova de sua existência primeira aqui; Moji, Moji-mirim, Jacaré-pepira, Botucatu, urutau, caraguatá, mororó, jatobá, jacarandá, ararama, ariranha, Araraquara, Cajuru, cateretê, tamanduá, guará, gabiroba, etc. Índios que perderam sua amada terra do sol... Foram mortos, escravizados, pegaram as doenças dos brancos e assim tribos inteiras desapareceram, facilitando o trabalho da colonização (invasão). Por um capricho da genética, os Índios eram indefesos às doenças dos brancos... Para os dominantes da época colonizadora Índio, Negro e Mulher não possuíam alma, eram coisas, assim como uma pedra, ou uma árvore morta, que pode ser picada e queimada... Os Índios e Negros eram escravizados ou mortos, as mulheres sequer possuíam sobrenomes, eram conhecidas apenas pelo primeiro nome, não tinham direito algum. Aos Índios, todo o meu respeito e gratidão pela terra na qual eu hoje vivo...Para se ter famosa e dolorosa terra roxa, quanta luta e dor. Regada com tanto sangue e lágrimas de acorrentados, exilados e atormentados escravos negros... Para com eles minha eterna solidariedade. Para todas as mulheres de todos os tempos a minha admiração... Terra também "rossa" do suor dos Italianos e de outros imigrantes. Terra que alimentou fartamente os bolsos brasileiros, bancos e bolsas mundiais... Quando poderemos pagar tantas dívidas para com esse passado, ainda tão perto?


Voltando aos imigrantes Italianos, a adaptação não foi assim tão fácil como pensam alguns descendentes. Num relato do jornal "Avanti" dos dias 25 e 26 de maio de 1902, podemos ler a história de duas irmãs italianas da família Lungaretti, moradoras na região de Ribeirão Preto, que recusavam firmemente o assédio de Raul Salles, o que resultou na perseguição e agressão de toda a família das moças. Por isso todos os italianos da fazenda pararam o trabalho em solidariedade aos amigos. Enfurecidos os Salles resolveram se impor, mandando a família embora, mas os Lungaretti se recusaram a sair, dizendo que tinham contrato de trabalho. Diante disso o pai de Raul agrediu o velho Lungaretti. Angelo seu filho vendo o pai ferido e sendo muito mais forte que o agressor, matou Diogo Salles. O caso não teria tanta repercussão, não fosse o morto, irmão do então Presidente Campos Salles.
Toda a população italiana se uniu para angariar fundos e contratar o melhor advogado, para defender Angelo Lungaretti, que mesmo assim acabou pegando oito anos de prisão. A historia ocupou por muitos dias a imprensa paulista. Era difícil para as oligarquias cafeeiras entender que os italianos tinham seus valores, não eram seus escravos... Escravos que por esta época quase não tinham como sobreviver, porque o trabalho assalariado era dado aos imigrantes. Ou ficavam ajudando nas casas das fazendas em troca de comida ou fugiam para as matas indo morar nas beiras de rios ou em morros. Outros de tanto apanhar perdiam totalmente a auto estima, mendigavam pelas ruas. Muitos foram vivendo da natureza, formando comunidades distantes das cidades, os quilombos, alguns existentes até hoje. Assim o Brasil foi iniciando a triste história dos favelados...Tão lindo e colorido e caloroso o nosso país e tão repleto de choros longínquos , que ainda ecoam nas matas, nos rios, nas mentes e corações que sentem...


Voltando a Dourado do começo do século, cidade ainda na infância era dirigida por intendentes desde 1897 até 1906, quando teve seu primeiro prefeito Alfredo de Araújo, que governou até 1926.
O centro do Estado de São Paulo tem sua história tão entrelaçada, entre os seus municípios, como uma tela de bordados. Cada cidade com sua cor e todas juntas formam um lindo mosaico. Se voltássemos apenas cem anos, que é um tempo muito curto perante a história, veríamos a região central de São Paulo, como uma única peça de tecido, onde cada município foi sendo tingido com uma cor diferente, conforme os acontecimentos iam se sucedendo. Somos todos ligados pelo invisível e implacável fio do destino, que nos costura uns nos outros e que leva todos os viventes para o mesmo lugar, e num pedaço de terra tão pequenino...
Em Dourado os imigrantes foram se encaixando devagar, cada um achando seu lugar, colocando seu pedacinho do bordado da vida. Contam os antigos que Antonio Agnelli andava sempre armado. Era um homem alto e forte, vestia bombachas, usava capa gaúcha, botas sanfonadas, camisa de linho, uma guaiaca carregada de balas. Homem inteligente, bom negociante. Fazia comitivas para Mato Grosso, levava a boiada pelas estradas de pó e lama. Uma figura ímpar, aquele montanhês grande e rosado de olhos azuis, vestido de boiadeiro, assobiando, gritando com os peões e bois. Não largava sua amiga carabina.
Os Agnelli possuíam a fazenda Pedra Branca entre Dourado e Ribeirão Bonito, onde existe uma enorme formação rochosa chamada cuzcuzeiro, a tal pedra branca. Até os dias atuais o pessoal chama a formação de "Pedra do Agnelli". Francesco Agnelli, tio de Antonio tornou-se o contador da família, ganhava muito dinheiro exportando café, mas perdia no jogo...Vendeu a fazenda.
Corria o ano de vinte e sete. Época de muita agitação política, ânimos exaltados, revoluções. Antonio com a parte do dinheiro que lhe coube comprou a fazenda Contendas, perto de Brotas. Para lá foram Tereza e todos os filhos louros. Plantavam, criavam gado e cavalos de corrida muito bem cuidados pelo empregado "João Trovão". Possuía também um "pé de bode", que era o nome dos primeiros carros Ford, os famosos fordinhos, símbolo de status social nas décadas de vinte e trinta. E começou o tempo das revoluções. Mataram João Pessoa... Foi uma cascata de acontecimentos desembocando na primeira Revolução, a de 1930.
Tiraram o presidente Washington Luiz e subiu ao poder central o gaúcho Getúlio Vargas. Várias foram as causas que derrubaram o presidente, entre elas o descontentamento dos cafeicultores, que ficaram sem financiamento para suas safras, devido a queda da bolsa de Nova York em 1929. O café era o principal produto de exportação do Brasil. Outros setores paulistas ligados à indústria e a exportação colocaram-se francamente a favor da revolução.
Em 9 de julho de 1932 foi declarada a Revolução Constitucionalista. Seu objetivo era levar o país de volta a um regime constitucional, do qual estava afastado desde a Revolução de 1930. Getúlio Vargas não havia convocado eleições para a Assembléia Constituinte ou para os governos estaduais. O país vivia um regime de exceção, não havia congresso e as leis eram feitas pelo presidente e seus ministros. Os estados eram governados por interventores impostos pelo governo central e geralmente escolhidos entre os tenentes que haviam apoiado Getúlio Vargas na Revolução de 1930. O famoso "Tenentismo". E as tropas revolucionárias chegaram até a fazenda Contendas de Antonio Agnelli. De lá levaram oito sacas de feijão, outras tantas de milho e mantimentos, uma espingarda, um rádio. Mediram a altura dos cavalos de corrida, para levarem só os melhores. Assim de um dia para outro, sem que ninguém pudesse reagir. Nem o adorado "fordinho das meninas" foi poupado. Tinha muita serventia para os soldados...E assim um ano inteiro de colheitas, de suor, desapareceu na nuvem de poeira da revolta. E São Paulo acabou sozinho, pois Minas e Rio Grande do Sul passaram para o lado do Governo Federal. São Paulo perdeu. Alguns douradenses filhos de italianos foram servir na Revolução, entre eles os irmãos Sciaretta. A juventude não perde a oportunidade de participar de mudanças em todas as épocas.


Sabiamente Antonio Agnelli passou seus bens e contas bancárias no nome dos filhos brasileiros. Era uma família unida , única maneira de ser forte em terras tão desorganizadas. Qualquer ofensa a um dos membros da família era uma ofensa para todos. Eram admirados e odiados. Não professavam nenhuma religião, muito menos a católica. Desde a Itália tinham total desconfiança de batinas. Mas certo dia, Tereza na sua curiosidade feminina quis conhecer a igreja de Ribeirão Bonito, diziam que tinha pinturas bonitas. Tereza ainda era uma linda mulher, embora mãe de muitos filhos. Convidou sua cunhada Maria e lá se foram as duas. Entraram cuidadosamente na igreja vazia, olharam tudo depois se ajoelharam, com a cabeça baixa. Não é que de repente Tereza levou o maior susto, com o padre tascando-lhe um beijo no rosto. Ela gritou, pulou e as duas saíram correndo, enquanto o pároco tentava inutilmente dizer que pensava ser ela uma santa... Chegaram em casa assustadas. Maria mais jovem e mais impulsiva foi logo contando o sucedido para o irmão. embora Tereza tentasse fazer sinais para que não falasse.
Antonio estava sentado à mesa comendo, parou. Empurrou a cadeira, fincou a ponta da faca na madeira da mesa. Saiu como uma bala. E que bala! Pegou seu cavalo, sua carabina e o chicote. Chegando na igreja, com um pontapé quase derrubou a porta da sacristia, pegou o padre pelo pescoço dando-lhe bons tapas. Depois o amarrou com o laço boiadeiro, colocou-o na frente do cavalo. Montou o animal e foi tocando o padre, como um boi, dando-lhe chibatadas. Ia gritando em italiano, para todo mundo ouvir, porque fazia aquilo. A cidade emudeceu, a igreja também. Transferiram o padre...
Assim era a vida, quem podia mais, chorava menos. Tempos de sobrevivência sem muito respeito às leis. O país engatinhava em certos princípios de civilidade. Em lugares distantes onde a comunicação era difícil de chegar, como nas matas das fazendas de muitos alqueires de mata cerrada, nem se sabia o que era lei. Os Agnelli empurrados pela ânsia de conquistadores, compravam terras e bois, plantavam sementes para um futuro desconhecido, mas esperançoso. Em setembro semeavam o café, milho, feijão e por sete a oito meses tratavam as plantações. Em maio e junho começavam as colheitas. Muitas foram as razões dos imigrantes, alguns vieram na esperança de possuírem seu pedaço de terra, como tinham na Itália, outros por pura sobrevivência física, mas todos com uma rebeldia comum frente a uma situação impossível de se manter na pátria de origem.
Se fossemos contar hoje os descendentes de italianos que vivem fora da Itália, o número dos que imigraram e sua descendência, juntos superam a população Italiana atual. Os vários imigrantes contribuíram muito com o Brasil, com sua força de trabalho inteligente. Os Italianos com sua organização, sua alegria natural, tudo para que São Paulo se tornasse uma potência dentro do Brasil.


Após a Revolução de 1932 começaram a chegar nordestinos aos borbotões, foram aumentando a cada década. Pressionados por uma seca interminável e sem vontade de solucioná-la pelo poder de lá, vinham em busca de trabalho. Muitos até eram encorajados a vir para São Paulo, talvez porque a idéia de que, com o tempo um estado miscigenado, não tão europeu, tornava-se mais fácil de controlar. Sendo o país de origem patriarcal, os interesses naturalmente ficariam divididos entre filhos, netos e bisnetos, todos miscigenados, aí ninguém mais iria querer separações, outras revoluções...

A partir de 1932 o poder paulista diminuía no Governo Federal e aumentava o de nordestinos. Desde então ficou praticamente impossível ter paulistas no centro do poder. Paulista sempre foi duro de montar. Trabalharam dobrado, partindo para a industrialização, que fez do Estado novamente o centro das atividades econômicas do país.
Dizem outros brasileiros que paulista só sabe trabalhar, pode até ser verdade... Como seríamos nós se não fossemos forjados a ferro e bigorna? Alguns fazendeiros deixaram o café e partiram para a produção leiteira, ao que se seguiu o nascimento de laticínios em Dourado, Ribeirão Bonito e São Carlos.
Na região central do estado as primeiras organizações bancárias nasceram sob a direção de grandes propriedades rurais. Embora o governo mandasse queimar todo aquele café depois da crise da bolsa de vinte nove, o capital que tinha gerado acabou financiando a industrialização e os paulistas, habilidosos poupadores não desperdiçaram nem fumaça, que continuou até os nossos dias nas muitas fábricas espalhadas pelo estado.
O grande número de imigrantes habilidosos, fez com que surgissem pequenas indústrias, muitas existentes até hoje. Nasceram as indústria de tecidos em São Carlos como a de Germano Fehr que fornecia brim verde-oliva para o exército; a de lápis , como a antiga Johann Faber, hoje Faber-Castell, que já era uma pequena fábrica em 1926, também da família Fehr. Fábricas de móveis, etc.
Em Dourado havia as indústrias de guaraná Tupy e cerveja Guarany e um número grande de sapateiros, vassoureiros, marceneiros, etc.
Em Ribeirão Bonito havia as "Indústrias Torrezan", que começara com habilidosos ferreiros Italianos, fazendo de início rodas para carroças, foram progredindo até chegarem as peças para carro.
Em Torrinha havia até um banco, nascido lá mesmo com capital do café. Enfim o centro do estado passava do setor agrícola para o industrial, comercial e bancário. E toda essa produção demandava escolas e mais escolas que foram surgindo na esteira da necessidade de progresso. Foi-se gerando assim a base para a instalação das Universidades por aqui.
Após o período conturbado das Revoluções, os Agnelli começavam a recuperar sua economia com a criação de gado, deixando o café que já não trazia mais lucros para ninguém. Só servia mesmo para o pouco consumo. Os filhos estavam adolescentes. Ajudavam no trabalho. Enquanto Antonio Agnelli partia com comitivas para o Mato Grosso, os filhos mais velhos tomavam conta dos negócios. Os irmãos de Antonio também já estavam casados. Maria Agnelli havia fugido para casar com João Novaes de São Carlos, Ana (Nita) morava com o marido em Ribeirão Bonito. Deolinda e Itália em Bauru. O tio Francesco morrera de enfarte por causa da queda da bolsa de Nova York, ele tinha muito café estocado em Santos. Possuía muitos terrenos em São Paulo. Era inclusive sócio da então iniciante fábrica de vidros "Nadir Figueiredo". Era solteiro, não deixou descendentes. Josefina morreu dois meses após o casamento. Ernesto casou-se com Tereza Ambrozio de Dourado. Violindo e Lídia eram solteiros.
Na fazenda Contendas ( Nome bem apropriado ), os Agnelli tornaram-se vizinhos dos Pereiras. Não eram amigos, mas se respeitavam. O destino vai desenhando na malha de seu tecido às vezes cores tristes, às vezes alegres, para que a vida se manifeste. Ela se impôs com cores carregadas no final dos anos trinta, tanto para brasileiros, como para europeus.


Família Agnelli.






Francisco Agnelli (Filho de Antonio Agnelli) com os filhos em Mato Grosso.






Ver também:
Nossas Origens.

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/04/nossas-origens-e-tradicoes.html


Festas Regionais.

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/06/festa-sao-joao-batista-dourado-2010.html


Os Carneiros e a Estrela (Parte I).
http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/08/num-passado-distante-em-dourado.html


Os Carneiros e a Estrela (Parte II).

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/08/dourado-e-imigracao-italiana.html


Os Carneiros e a Estrela (Parte III).

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/08/ascendencia-espanhola.html


Cartas de Germano Agnelli (2ª Guerra Mundial).
http://douradocidadeonline.blogspot.com/search/label/Germano


O Turismo em Dourado.
http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/08/dourado-e-o-turismo.html


Dourado década de 50 e 60.
http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/03/jc-jornal-da-cidade.html


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Dourado e a Imigração Italiana.

Os Carneiros e a Estrela (Parte II) por Kate Agnelli.


Retomando o tempo, roubando lembranças e aprisionando-as no papel, vou contar a história ouvida das tias, avós, enfim das pessoas mais velhas.

Era o começo deste século. O Estado de São Paulo estava sem a mão-de-obra gratuita dos escravos, recém libertos pela Lei Áurea. Os cafezais estavam parando. O que fazer se perguntavam os fazendeiros? A resposta veio através de uma Europa convulsionada por mudanças, com gente sobrando. Contratar trabalhadores estrangeiros. Foi a solução. E vieram os Italianos. Pressionados por uma Itália enfraquecida e ainda lutando por uma unificação dolorosa, muitas famílias Italianas viram na imigração uma luz de esperança. Chegavam aos milhares com o intento de "Fare l 'America, ma che bruta America!” Outros também vinham por causa das perseguições ideológicas contrárias à igreja Católica, grande poder na época.

Entre os reacionários estavam os Agnelli, que apesar do nome significar carneiros, nada tinham de manso, ao contrário, eram bravos e corajosos como tigres. De temperamento altivo, trabalhadores incansáveis, inteligentes, logo impuseram respeito.

Na verdade no final do século passado grandes transformações ocorriam por toda a Europa, o capitalismo e a industrialização forçavam muitas famílias camponesas analfabetas a miséria. Desde 1870 a Itália não sabia o que fazer com o número cada vez maior de desempregados. Ao mesmo tempo pequenos produtores rurais se viam afogados em dívidas, por causa da alta taxa de impostos sobre a terra. Acabavam engolidos pelos grandes proprietários rurais, que compravam suas terras por um preço muito abaixo da cotação real. Esses pequenos agricultores também acabavam na imigração...




A maior parte sequer sabia onde ficava o Brasil, não imaginavam o que iriam encontrar e o quão terrível podia ser uma viagem de navio para atravessar o Oceano Atlântico. Alguns nunca haviam saído de seus pequenos vilarejos...As famílias eram enormes, todas com crianças pequenas. Muitas vezes vinham todos, os avós, os pais, os tios, até os vizinhos.

No início da imigração a grande maioria dos italianos eram Vênetos, principalmente porque tinham grandes conhecimentos de agricultura. Segundo o autor P.Ghinassi "os meridionais(...) não amam a terra como os camponeses do Norte(...).De natureza versátil, engenhosos e irriquietos se adaptam a todos os trabalhos e profissões, mesmo as mais humildes e algumas vezes abjetas, desde que consigam um lugar imediato. Estes constituem a espinha dorsal dos diaristas (camaradas e trabalhadores por turma) ..) vão para as fazendas, mas não se dobram à prepotência e geralmente ficam ali só durante a colheita, depois passam para outras ocupações e quando essas terminam se repatriam para participar da colheita na cidade de origem".

Os Agnelli eram da Toscana da região de Arezzo. Como tudo estava ficando mais difícil e tendo eles se envolvido nas contendas locais pela posse da terra, viram-se ameaçados de morte. Num ato de coragem D. Violanda resolveu imigrar para a Argentina, trazendo apenas os filhos mais velhos. Com imensa dor no coração deixou os pequenos na Itália escondidos nas casas dos amigos. Mas mesmo na Argentina foram descobertos por fanáticos e novamente ameaçados. A solução foi vir para o Brasil. Trouxeram documentos, uma "burra" com jóias, ouro e demais valores carregáveis.

E o Brasil da época significava São Paulo dos cafezais, que logo aprenderam, era o que comandava a vida por aqui. O café que desconheciam era para eles no começo uma frutinha verde como a esperança, ia ficando vermelha e ardida, pois o sol em peles delicadas, fazia nascer um sentimento de raiva, finalmente acabava se tornando seca e escura como a vida cheia de tristezas e desilusões, depois de alguns anos na lavoura cafeeira... Muitos morriam de febre amarela, de bexigas. As mulheres enlouqueciam por causa de partos sem cuidados. Crianças descalças eram vítimas de picadas de escorpiões, de cobra, alguns acabavam cegos devido ao tracoma que ataca olhos pouco acostumados ao sol do clima tropical. Era como se eles tivessem chegado num outro planeta.

Mas aquela gente montanhesa de pele clara e de grandes reuniões familiares, tinha uma vontade indomável, mesmo nos anos de profunda nostalgia da terra natal.

Alguns italianos ingênuos vinham também ludibriados por promessas de ganho fácil. Inicialmente os Agnelli vieram para a região de São Carlos, mas acabaram por se instalar em Ribeirão Bonito. Lá montaram um grande armazém de produtos importados, como azeite, azeitonas, queijos e vinhos, na estação chamada "Ferraz Salles", parada obrigatória do trem da Douradense.

Os Agnelli exportavam café e importavam produtos inexistentes por aqui. Eram donos da Fazenda Pedra Branca. Naquela época ocorreu uma superprodução do café brasileiro. Em 1906 foi feito o convênio de Taubaté, uma medida que defendia o preço do produto. Isso custou muito caro para a economia do país, resultando em dívidas externas e competição de outros países no mercado mundial. Por essa época, em Dourado foi fundado o primeiro Grupo Escolar, inaugurado em 3 de agosto de 1908.

De arquitetura arrojada, projeto de Manuel Sabater. Com um frontão principal, decorado com duas estrelas de Davi... Quem conseguiu a aprovação da obra no governo de Jorge Tibiriça, foi o Dr. Carlos José Botelho, que também era Arruda... Em 1909 escreve o autor italiano, Paolo E. de Luca: "Os nossos imigrantes brasileiros são quase todos agricultores, provenientes, na sua maioria das províncias meridionais (...) muitas cidadezinhas da Calábria e Basilicata se tornaram quase despovoadas pela desenfreada emigração para o Brasil(...) Do Norte saem os Vênetos(...), dirigem-se de preferência para o estado de São Paulo e de lá se formam duas correntes distintas; uma se enterra campo adentro se dedicando à agricultura, a outra fica nas cidades e subúrbios, para exercer qualquer espécie de atividade. A primeira corrente é constítuida de pessoas provenientes na sua maioria de cidades vênetas, a outra da Itália central e meridional"

O trabalho do plantio do café era duro. Primeiro derrubava-se a mata, em geral no mês de abril, pois a chuva havia diminuído. A derrubada era feita com facões, machados e foices. Abatiam a mata natural, que se vingava com picadas mortais de cobra. Deixava-se a vegetação secar , para por fogo em agosto. A madeira ainda verde que sobrava, era utilizada em construções e as cinzas como adubo. Durante o tempo de espera da secagem, fazia-se viveiros de mudas de café. Após o desmatamento formava-se o cafezal. Por entre as "ruas", os imigrantes plantavam milho e feijão. Os contratos de trabalho duravam, em geral, cinco anos. O tempo de o café crescer, ser cuidado até a colheita.

Havia casos e conflitos entre colonos e fazendeiros. Os italianos diziam "desgraçado daquele que possuir mulher ou filha bonita", pois eram constantemente assediadas por capatazes inescrupulosos, que ainda perseguiam os homens espancando-os sem motivo aparente. Inúmeras queixas chegavam ao Consulado Italiano. O grupo dominante acabava por expulsar a família inteira, caso a mulher não cedesse aos caprichos desonestos. As mulheres possuíam uma carga de trabalho tremenda, pois cabia a elas, além de parir os filhos, fazer o pão consumido pela família, cuidar dos animais domésticos e o cultivo de cereais. Todo esse trabalho resultava numa certa economia para a família.

Para muitas famílias imigrantes recém chegadas a surpresa era muito grande pois, ao chegarem ao Brasil, recebiam a terra coberta por vegetação, não tendo sequer uma cabana para se abrigar, dormiam ao relento até construírem o primeiro casebre. Desmatar. Queimar. Plantar, mais quatro anos de espera até a primeira colheita. Com o preço do café caindo, os fazendeiros acabaram proibindo a plantação de cereais entre as "ruas de café". Um duro golpe para os colonos.

As greves começaram em 1913, segundo jornais da época. Muitos fazendeiros não queriam contratar italianos do sul, pois diziam que eram muito"encrenqueiros". Na verdade foram os primeiros a não se deixar dominar pelo poder. Iniciava-se um novo período, o do trabalhador assalariado. Naqueles anos muitos imigrantes retornaram a Itália tão pobres quanto saíram. Isso acabou por desestimular a evasão. Na Itália começava a industrialização e o operariado. No Brasil, os italianos resistiam ao desfacelamento familiar, mantendo seus valores originais, apesar do desrespeito imposto pelas oligarquias.

Natale Agnelli, sua mulher Giustina com o filho mais velho Antonio jovem de grande estatura, olhos azuis, temperamento ardente, terrivelmente sedutor. Antonio Agnelli crescia cheio de saúde num Brasil pleno de possibilidades de desenvolvimento e tantas coisas para descobrir. D. Giustina, mulher de temperamento forte, mantinha um porrete atrás do balcão do armazém, qualquer homem que tentasse uma gracinha ou bebesse um pouco além da conta, ela virava uma fera. Parecia o Thor deus dos nórdicos, colocava todos para correr com o porrete na mão. Ficou famosa pela valentia. Contam que certa vez um mulato forte entrou no estabelecimento e queria pinga, produto desconhecido para ela, pois so vendia vinho italiano, mas ele insistia. Numa ação rápida Giustina agarrou-o pelo pescoço e o jogou fora do local. Nunca mais voltou. Ela tinha um filho por ano, todos nascidos em casa, antigamente não havia atendimento hospitalar. Mas ela dizia, "quem tem medo de morrer, não merece viver"... Para quem veio de uma Itália desmantelada por tantas brigas, divisões internas de poder, sua alma era mesmo de um soldado. Enfrentava a vida, como uma batalha travada na guerra diária pela sobrevivência.




Antonio, Natale e Natal Agnelli.




Antonio Agnelli - Casa em construção no centro da cidade.




Antonio Agnelli e filhos.




Antonio Agnelli e Esposa Tereza.




Ver também:

Nossas Origens.

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/04/nossas-origens-e-tradicoes.html


Festas Regionais.

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/06/festa-sao-joao-batista-dourado-2010.html


Os Carneiros e a Estrela (Parte I).

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/08/num-passado-distante-em-dourado.html


O Turismo em Dourado.

http://douradocidadeonline.blogspot.com/2010/08/dourado-e-o-turismo.html